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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Dizem que sou corajosa


Uma das coisas que as pessoas costumam dizer-me quando lhes falo da minha decisão de emigrar, é que sou corajosa. E eu costumo responder que tinha apenas 20 anos quando emigrei, e que por sorte ou azar nunca fui uma jovem que pensasse muito no futuro. Pensava muito (no passado, no presente), mas o futuro nunca me ocupou muito tempo. Vim para a Suécia à aventura, com duas malas e sem plano, e apenas com o objectivo de ser financeiramente independente e de realizar dois sonhos de infância: viver no estrangeiro e ser hospedeira de bordo (emigrei na sequência de arranjar trabalho na Ryanair). Não pensei mais além e hoje sei que essa inocência foi uma benção porque me protegeu de muitos medos e angústias nos primeiros tempos. Por isso não acho que tenha sido corajosa. Acho que é mais corajoso quem emigra com filhos pequenos, ou quem deixa esposos e filhos para trás. E, na mesma medida, acho que é corajoso quem decide ficar. Ainda não consegui decidir quem é mais corajoso, se é quem emigra ou quem fica.



segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A melhor exportação portuguesa de sempre


Entretanto no trabalho, estou à conversa com um adolescente refugiado do Afeganistão que, depois de me pedir conselhos sobre a sua vida amorosa (gosta de uma rapariga e quer convidá-la para um encontro), fica curioso sobre a minha nacionalidade.

Ele: És sueca?
Eu: Não.
Ele: Então?
Eu: Adivinha...
Ele: Hmm. Síria?
Eu: Não...
Ele: Irão?
Eu: Não...
Ele: Líbano?
Eu: Não... Sou europeia.
Ele, com cara de choque: Europeia?!
Eu: Sim. Do sul da Europa.
Ele: Bósnia?
Eu: Não.
Ele: Itália?
Eu: Não...
Ele: Espanha?
Eu: Não, mas estás quase lá!
Ele: França?
E foi aí que desisti...
Eu: Sou de Portugal! 
Ele: Aaah!! Gosto do Cristiano Ronaldo.

E eu só digo isto:
1. Se me dessem um euro por cada vez cada reacção deste género, já dava para vos pagar um jantar a toda/os. 
2. Um dia destes hei-de enviar uma carta de agradecimento ao CR7 por pôr o nosso país no mapa.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

E agora falando a sério


Escrevi o último post num momento de frustração (e com um bocadinho de ironia). A verdade é que a resposta à pergunta é: apesar de hoje em dia não se enriquecer por emigrar, emigrar compensa financeiramente. O ano está a chegar ao fim e olhei para trás. Fiz um resumo das coisas que fiz e dos sítios a que fui em 2015, algo que teria sido impossível se vivesse em Portugal, desempregada ou a ganhar o salário mínimo...

Comecei o ano em Praga e tive uma passagem de ano mágica.



Em abril fui dar uma volta à Noruega (Kongsberg)...



Em junho fiz uma roadtrip com destino à Croácia (Makarska) e pelo caminho passei dois dias em Berlim. E ainda bebi um café numa estação de serviço algures na Áustria e apaixonei-me pelas montanhas...

Berlim

Algures na Croácia

Makarska, Croácia

Em julho passei pela Inglaterra (Oxford) e pelo País de Gales...

Oxford

Algures no País de Gales

E no meu aniversário (novembro) fui a Amesterdão.



Não vivo em luxo. É raro comprar coisas de marca e não queimo o meu dinheiro em saídas à noite. Vivo num estúdio de 22 metros quadrados para poder ter a liberdade de passar os meus fins-de-semana em Estocolmo e para poder viajar.  A maioria das viagens que faço, faço-as com o cinto apertado. Mas sei que são coisas que não poderia fazer se tivesse ficado em Portugal. Os sacrifícios que fiz ao emigrar concederam-me a liberdade com que sempre sonhei. A liberdade de dar umas voltas pela Europa. A liberdade de decidir mudar completamente de rumo e voltar a estudar por três anos e meio. A liberdade de ter um part-time na minha área e (até ver) boas perspectivas de emprego quando terminar os estudos. No fundo, a liberdade de ir construindo uma vida à minha medida. Por isso, apesar de me chatear ter de gastar 500 euros num bilhete para ir a casa no Natal (algo que não considero um luxo mas uma necessidade) e apesar dos aspectos emocionais da coisa (saudades, solidão, desamparo, integração, you name it), emigrar continua a compensar financeiramente.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Emigrar compensa financeiramente?


Premissa #1: no estrangeiro ganha-se melhor e até como estudante (no meu caso) se tem direito a apoios financeiros inexistentes em Portugal.

Premissa #2: o meu vôo para ir a Portugal no Natal, marcado há uma semana, custou 500 euros. 500 dinheiros, gente!

Conclusão: às vezes não sei.


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

5 horas em Zurique


Não há vôos directos Porto - Estocolmo. A viagem leva-me quase sempre um dia inteiro (muitas vezes com direito a acordar às cinco da matina ou mais cedo), durante o qual me concedo way too many caprichos para compensar pelo tédio, pelo cansaço, pela solidão. Ele é livros e revistas; ele é produtos da loja duty free; ele é atacar todos os itens comestíveis que me dê na real gana apesar dos preços astronómicos (já para não falar daquele fenómeno curioso em que as minhas roupas encolhem). E assim vou conhecendo os aeroportos da Europa e desenvolvendo as minhas tácticas de sobrevivência. Desta vez fiz escala de cinco horas em Zurique e como a cidade fica apenas a dez minutos de comboio do aeroporto, lá fui eu. O bilhete de ida e volta e custa cerca de 13€. Encontrei Zurique on fire, quase literalmente. Um calor de morrer (30 graus). Um desfile de milhares de pessoas bastante tocadas pelo álcool, uma espécie de cruzamento do Carnaval com o Pride com a Queima das Fitas. Tinha planeado fazer algo decente, do género almoçar e tomar um café na zona histórica, que por sua vez fica perto da estação, mas a cidade foi completamente invadida pelo pessoal do desfile e por isso não deu para fazer grande coisa (acabei por comer no Mc Donalds do aeroporto). Mas foi giro. Quase fui arrastada para o meio da multidão. Vi ao longe as montanhas que rodeiam a cidade. Passeei ao longo do rio. Tirei resmas de fotos, todas elas de qualidade péssima. Ganhei uma espécie de bronze que não me foi concedido em duas semanas de férias em Portugal #ironiasdavida. E assim passam cinco horas a voar.

Ah. A Sandra do Fondue e Chocolate documentou o desfile de forma mais pedagógica aqui!




quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Às compras em Portugal



Uma lei da vida: quando venho a Portugal faço pelo menos uma "sessão de Bertrand" (ou Fnac). Com toda a calma do mundo, escolho alguns livros, sento-me e dou uma espreitadela aos seus conteúdos, para me decidir. Ando numa fase de romances históricos, de reis e rainhas, e comprei o "Profecia" de S. J. Parris [10 €] para me acompanhar na viagem de volta para a Suécia.


Ah, e comprei a primeira prenda de Natal do ano, para a minha irmã Susana. #vidasobcontrolo


Nos saldos da Kiko, comprei:
Sombra de olhos Click System #236, [2.40 €]
Sombra de olhos Click System #240 [2.40 €]
Lápis de olhos Smart Eye Pencil [2.50 €]
Lápis de olhos Smart Eye Pencil [2.50 €]
Eyeliner Ultimate Pen Long Wear [3.40 €]
Verniz de unhas #287 [1.90 €]

Para meu desgosto, achei os lápis de olhos muito fraquinhos. As cores são l-i-n-d-a-s mas não têm boa pigmentação e por isso não fazem grande efeito. O resto ainda não experimentei mas já conheço os vernizes da Kiko e gosto. Não se destacam no que diz respeito à durabilidade, mas têm um bom desempenho em relação ao seu preço.


Na Clarel:
Pincel para olhos Smokey Eyes da Catrice [3.19 €]
Óleo para cutículas Studio Nails da Essence [2.49 €]
Gel desmaquilhante da Bonté [2.99 €]
Beautifying Lip Smoother da Catrice [3.99 €]
Água micelar da Bonté, que resolveu dar sumiço quando decidi tirar a foto [1.89 €] 

Ando a gostar de descobrir as marcas que se encontram na Clarel, por serem baratas e darem bons resultados (até ver). Já experimentei o óleo para as cutículas e gostei. O desmaquilhante também funciona bem mas é bastante caro para a quantidade que leva (50ml) e comprei-o sobretudo para me acompanhar nas minhas viagens. O produto que se destaca é o "lip smoother" da Catrice. Não é um gloss, não é um batôm de cieiro, é algo intermédio. Não é muito hidratante mas dá um efeito bonito aos lábios.

E no intervalo durante as compras? Um café e um pastel de nata, claro.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Top 10 de coisas que só faço quando venho a Portugal


10. Tratamentos de beleza/spa
Ok, isto sou eu a sonhar. Ainda não fiz porque além de emigrante também sou estudante, o que coloca os seus entraves a nível de orçamento, mas já verifiquei que são mais baratos cá e um belo dia hão-de encontrar-me alapada numa marquesa a fazer uma drenagem linfática ou algo que o valha.

9. Comprar cremes e sprays para os sapatos
Sim, a sério. Sabem aqueles cremes e sprays para proteger os sapatos da chuva, humidade etc? Quando se vive na Suécia é imperativo usá-los porque, enfim, se não é a chuva é a neve que está a derreter e se não é a neve a derreter é a chuva. E pronto, eu gosto muito do creme para os sapatos do Continente. Faz aquilo que deve fazer e não custa 10 euros como os cremes que vejo lá no círculo polar.

8. Cortar o cabelo
Porque cortar o cabelo custa lá para cima dos 35 euros e em muitos sítios nem lavam o cabelo (mesmo estando oleoso), usam simplesmente um spray de água para o humedecer.

7. Comprar revistas
Na Suécia não ficam por menos de 5 euros e se for comprar aquelas de que eu gosto mesmo (revistas britânicas, portanto, importadas) a brincadeira não fica por menos de 10 euros. E na era da internet, com a abundância de coisas fúteis e bonitas à distância de um clique (e com menos publicidade), parece-me um gasto estúpido desnecessário. A isto ajuda ter-se wi-fi grátis nos comboios lá do reino, que é quando o apetite de ler revistas surge. Tirem-me a wifi-fi grátis e a internet no telemóvel/iPad e lá estarei eu a desembolsar 10 euros. Quando tenho de ler, tenho de ler.

6. Tomar café fora de casa sem peso na consciência
Não se toma café fora de casa por menos de 2,5 euros e já cheguei a pagar 5 euros por um café normalíssimo, num sítio normalíssimo. Uma pessoa sente-se Tão. Roubada.

5. Arranjos de costura, mais precisamente bainhas de calças
Porque fazer bainhas de calças no sítio "muito em conta" que me indicaram lá na Suécia custava 25 euros. Depois de o meu queixo voltar ao normal, agradeci a dica e pus as calças em questão na mala de viagem, à espera da próxima ida a Portugal. Aqui faço bainhas por 3 dinheiros.

4. Limpeza de roupa a seco
Por motivos semelhantes aos descritos acima.

3. Comer peixe grelhado e marisco
Os suecos ainda acreditam que têm peixe e marisco. Quando lhes falo de polvo, juram a pés juntos que têm polvo "muito bom". Quando se desfaz o mal entendido, fico a saber que se referem a calamares congelados. (Aqui entre nós, polvo é peixe ou marisco ou nenhum dos dois? Fiquei na dúvida mas não me apetece ir ao Google).

Daqui

2. Manicure e pedicure
Porque lá na Suécia custa entre os 40 e os 50 euros e não, nem são unhas de gel. É mesmo a manicure normal. E normalmente cobram mais para remover as cutículas.

1. Fazer análises ao sangue
Na Suécia não há o hábito de fazer análises ao sangue por rotina. Quando mostrei umas análises que fiz aqui em Portugal ao meu médico na Suécia, ele não queria acreditar no nível de detalhe delas e divertiu-se muito a ler os nomes dos componentes, um a um. Nunca experimentei mas na Suécia também deve dar para fazer análises ao sangue, no privado (tal como aqui em Portugal), mas não me apetecia muito ir à falência só para saber se tenho anemia. Aqui em Portugal a consulta fica-me por 35 euros e por isso só faço análises cá.

P.S. Estou de férias em Portugal. Adivinhem o que ando a fazer?


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Isto não é uma competição, mas...


Estão a ver aquela satisfação de conhecer uma expatriada que está na Suécia desde 1995 e fala sueco pior do que eu?

P.S. Um pensamento nobre por dia, nem sabe o bem que lhe fazia.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

Eu, a enfermeira do centro de saúde e perguntas existenciais


Durante as análises ao sangue, eu e a enfermeira do centro de saúde discutimos as minhas próximas análises e eu digo que se calhar as faço "quando for a casa, a Portugal".

E ela: a questão é se Portugal ainda é a tua casa... 

Obrigada, enfermeira do centro de saúde, por tentares ajudar-me a resolver o puzzle existencial que é a minha vida.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

domingo, 20 de julho de 2014

Finalmente sou uma pessoa como as outras


fonte
Depois de muitos meses de antecipação e de expectativas gigantescas, lá consegui ver o Gaiola Dourada. Tem portuguesidade e estereotipos com um fundo de verdade. Tem drama e comédia, mas mais drama que comédia. Tem a matriarca (chamada Maria, claro está), o "rochedo" que mantém toda a gente unida, como em tantas outras famílias que conheço, ficcionais ou não. Tem fado, bacalhau e pastéis de nata. Tem amizade e fofoca. Achei muito interessante o dilema da Maria e do José, pois é algo que a maioria dos emigrantes tem de enfrentar mais tarde ou mais cedo. De um lado a vontade de regressar a casa, do outro as pequenas coisas e pessoas que se vão conquistando no "novo" país, que a certa altura já não é assim tão novo. A questão dos filhos, que rejeitam a cultura dos pais e por vezes têm vergonha das suas origens, é algo que encontro muito na Suécia com famílias de todo o tipo de países, culturas e religiões. A mesma coisa com aquele medo de que os nossos compatriotas fiquem com má impressão nossa.

Acho que teria sido ainda mais interessante abordarem o drama dos jovens portugueses emigrados que desejam voltar a casa e não o podem fazer por causa da crise (posso fazer o papel principal), mas no geral achei o filme engraçado e verdadeiro. Agora, para ser mesmo como as outras pessoas, só tenho que passar a gostar de estar dias inteiros enfiada na praia e começar a ver Game of Thrones com urgência. Mas vai ter que ficar para depois porque ando ocupada a (re)ver a Girls e a comer bolo de brigadeiro.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Precisamos de falar, Portugal


Por que é que as pessoas estão cada vez mais giras? É por eu já não estar cá, a afectar negativamente as estatísticas?

E as leggings, de onde vêm tantas leggings? Quando é que se tornou aceitável usar leggings com tops curtos?

Como é que o pão está cada vez mais saboroso? Aliás, como é que a comida no geral está cada vez mais saborosa? 

Por que é que as vitaminas são tão caras? É por a comida ser tão saborosa? 

Por que é que as telecomunicações são tão caras? Por que é que a Optimus, a minha rede de sempre, agora se chama NOS? Por que é que ouço publicidade no telemóvel quando faço telefonemas? Aliás, por que é que até as novelas estão cheias de publicidade?

De onde vem tanta falta de profissionalismo nas lojas e nos serviços públicos?

A moda do gin, quando começou? 

E a moda das pulseiras?

O que é aquilo que se passa na baixa do Porto? Câmara Municipal do Porto, esperaste que eu emigrasse para transformares a baixa num mar de bares, restaurantes e coisinhas a acontecer e, o que é mais, com wi-fi grátis? 

As pessoas que foram ver Arctic Monkeys ao Optimus Alive e que andam aí a meter nojo... Assim de repente, qual é a penalização legal por se apedrejar alguém? (É uma amiga minha que quer saber...)

E o João Baião, que continua igual ao que era na idade de ouro da televisão, também conhecida como Big Show Sic. Precisamos de falar disso. Por que é que ele não envelhece como nós, comuns mortais? O que é que ele anda a tomar? E por que é que pareço ser a única pessoa preocupada com isso? Não vêem que coisas assim precisam de ser patenteadas e comercializadas? 

Quem é que inventou o sistema das bilheteiras do metro do Porto? Precisamos de encontrá-lo e, das duas uma, mandá-lo para a prisão ou oferecer-lhe o prémio Melhor Adaptação dos Romances de Kafka à Vida Real. Há a máquina que só aceita moedas, a máquina que só aceita troco certo, a máquina que só aceita notas, a máquina que só aceita Multibanco às terças-feiras do segundo trimestre do calendário Chinês entre as 14:00 e as 15:35 e, é claro, a nossa preferida, a máquina que pura e simplesmente não funciona. O que vale são os funcionários sempre à disposição. Deviam ser canonizados.

E, last but not least, o que é este verão, Portugal? Ainda sou do tempo em que havia verão a sério. Em que não passava frio na praia. Preciso de uma justificação. Eu tento não levar estas coisas a peito, mas assim fica difícil.


terça-feira, 29 de abril de 2014

O emigrante e a amizade


A amizade é feita de momentos...

Aquele momento em que percebes que, apenas por alguém ter a mesma nacionalidade que tu e por viverem no estrangeiro, não significa que podem ou devem ser amigos.

Aquele momento em que és acusada de não gostar do teu país por fazeres amizade com espanhóis.

Aquele momento em que travas amizade com gente de todo o mundo, de Portugal (e Espanha, é claro) até ao arquipélago da Cochichina Oriental, mas ainda não tens um único amigo sueco.

Aquele momento em que o teu primeiro amigo estrangeiro muda para outro país e achas que o mundo vai acabar.

Aquele momento em que os amigos #2, #3, #4, #5, #6, #7, #8, #9, #10, #11, #12, #13, #14, #15 e #999 se vão embora e achas que já começas a estar habituada à situação e que até cresceste como pessoa devido a tantas despedidas.

Aquele momento em que choras durante três horas, quarenta e seis minutos e oito segundos num bar de karaoke rock quando ficas a saber que o amigo #1000 se vai embora.

Aquele momento em que juram manter o contacto pelo Skype mas sabes que a amizade não vai ser a mesma.

Aquele momento em que te apercebes que tens alojamento grátis noutros países, agora que os teus novos amigos estão espalhados pelo mundo.

Aquele momento em que decides que tens de fazer amigos suecos para evitar tanto abandono cruel.

Aquele momento em que dizes uma piada qualquer e os suecos ao teu redor se riem.

Aquele momento em que um sueco até te acha graça mas em que te apercebes que nunca entrarás no grupo de amigos porque o grupo de amigos é composto por pessoas que conheceu no primeiro dia de infantário.

Aquele momento em que um sueco te ignora completamente no trabalho. Isto depois de ter passado uma noite a falar contigo, de cerveja na mão, como se um melhor amigo se tratasse, na festa da empresa.

Aquele momento em que estás numa festa de suecos, a jogar Trivial Pursuit, e te dão os parabéns como se fosses uma criança quando acertas numa resposta.

Aquele momento em que tu, que não estás habituada a beber muito, bebes uma garrafa inteira de vinho rosé espumante para ganhares coragem para enfrentar um grupo de suecos monossilábicos. Passas a noite calada mas sorridente. Depois de os convidados se irem embora vomitas na casa-de-banho.

Aquele momento inevitável em que conheces um estrangeiro e se dão muito bem mas lhe perguntas, a medo, quanto tempo vai viver na Suécia. Começas a preparação mental para a despedida. Pelo sim pelo não compras um cartão de despedida com ursinhos e balões para oferecer no futuro.

Aquele momento em que te apercebes que conseguiste algo com que sempre sonhaste, conhecer gente de todo o mundo, mas que nunca imaginaste que aconteceria nestas condições.

Aquele momento em que a tua colega de curso te ignora no autocarro apesar de te ter enviado um pedido de amizade no Facebook.

Aquele momento em que a tua nova amiga sueca faz questão de te cumprimentar com dois beijinhos na cara porque sabe que é assim que fazem no teu país. Apesar de os suecos terem horror a beijinhos na cara.

Aquele momento em que te vês metida num autocarro durante vinte e cinco minutos com um sueco monossilábico e, para compensar o silêncio dele, começas a falar demais e fazes figura de idiota. Passas a tarde a pensar na figura de idiota que fizeste no autocarro e prometes não repetir a proeza. Mas sabes que vais repetir a proeza.

Baseado em histórias reais

(Pensem nisto como uma pequena colectânea de coisas que me aconteceram a mim e a outros emigrantes que conheço. Sim, tem elementos de ironia e alguns exageros, mas a moral da história é simplesmente que a amizade às vezes é um desafio enorme para quem vive num país diferente. Não significa que não se possa fazer amizades verdadeiras, ou que as amizades com os que nos deixam não valeram a pena, mas simplesmente que é difícil e que a maioria de nós tem que aprender a conviver com um certo desamparo. Isto aplica-se especialmente a quem está longe da família.
Acho que muitos estereotipos têm um fundo de verdade e no que diz respeito aos suecos, eles são conhecidos pela sua frieza por algum motivo. Não significa que não possam ser simpáticos, ou que não haja muita gente boa, aberta e divertida. Significa que no geral são fechados, e ainda mais quando convivem com estrangeiros.)



terça-feira, 25 de março de 2014

Das concessões que se fazem quando se vive na Suécia


Tirar os sapatos ao entrar em casa. Apertar a mão em vez de dar beijinhos. Beber café de filtro em vez de "expresso". Pagar 1€ para ir à casa-de-banho no shopping. Não ver o sol durante semanas a fio. Usar esta coisa para lavar a louça.


Lava tão bem a louça como uma esponja? Não.
Faz-me confusão? Sim. Muita? Sim. 
Recusei-me a usá-la durante os meus primeiros três anos de Suécia? Mais ou menos.
Mas... não estraga as mãos. Estou rendida.

sábado, 8 de março de 2014

Queria uma caixinha de lentes de contacto azuis e um passaporte novo, se faz favor.


Eu tinha sido avisada, mas preferi pensar que era mito urbano. Há quem pense que o nosso pequeno jardim à beira-mar fica na América do Sul. Conheço emigrantes portugueses que se queixam da frequência dos enganos mas, das duas uma, ou tenho tido sorte com as pessoas com que me cruzo ou então não ando a conviver com muita gente. 
Sei que em cinco anos de aventuras escandinavas nunca me tinham feito uma dessas. Normalmente as reacções que as pessoas têm quando lhes digo que sou portuguesa podem ser divididas em cinco categorias: 

1. Ah, Ronaldo! Gosto muito do Ronaldo, é o maior! / Não gosto do Ronaldo, é tão arrogante!; 
2. Ah, Mourinho! Gosto muito do Mourinho, é o maior! / Não gosto do Mourinho, é tão arrogante!; 
3. Uma vez estive em Espanha e gostei muito!;  
4. Uma vez estive em Lisboa/Algarve e gostei muito! 
5. Mas que língua é que falam em Portugal?...; 

Também já tive a infelicidade de ver Portugal no mapa no telejornal, mas cortaram o "P" e ficou "ortugal" (doeu um bocado). Mas... até há pouco tempo nunca tinha ouvido essa da América do Sul. Foi mais ou menos assim: numa loja, a funcionária mete conversa comigo. Venho a saber que é turca e vive na Suécia desde criança. Quer saber donde sou e o que estou a fazer aqui. "Ah, portuguesa, está bem! E estás a estudar, que bom! Foi fácil obter o visto?" Eu: "Hmm... Portugal faz parte da E.U. por isso não houve problemas". Ela: "Ahh... é que conheço por exemplo muitos chilenos e para eles foi muito difícil". 

Podia ser pior. Uma vez uma senhora árabe convenceu-se que eu era árabe e ficou furibunda quando lhe disse que não falava árabe. Uma vizinha, provavelmente também convencida que eu era "desses países", só começou a dirigir-me a palavra, e mal, quando ficou a saber que eu era portuguesa (ou seja, europeia, ou seja, não árabe). A minha prima passou por algo ainda pior: um grupo de árabes, também convencidos que ela era árabe, insultaram-na aos berros por ela não estar a usar véu. Não é fácil ter olhos castanhos e cabelo castanho neste país. Não é fácil ser portuguesa neste país (talvez não seja fácil ser-se português em lado nenhum). Sai uma caixinha de lentes de contacto azuis e um passaporte novo, se faz favor. 

P.S. Ou não. Ainda te amo, "ortugal".

domingo, 27 de outubro de 2013

Duas malas e zero luvas


Foi há 5 anos atrás, perto das 24:00 de uma noite gelada, que cheguei à Suécia com duas malas e sem luvas nem qualquer ideia daquilo que me esperava. Não houve tempo para fazer muitas perguntas: no dia seguinte tinha que me levantar às 4:30 para ir para o trabalho. E não, não fui eu que planeei as coisas de forma tão (des)inteligente, foi mesmo a empresa para qual eu iria trabalhar... mas esse é tema para outro capítulo, ou três. De qualquer forma, eu tinha passado o dia inteiro a viajar e estava tão cansada que o meu único plano para essa noite era chegar ao hostel o mais rapidamente possível e enfiar-me na cama, mas nem isso foi possível. No momento em que abri a minha mala, reparei que havia algo de errado. No alto dos meus 20 (quase 21) anos, eu não tinha empacotado bem o meu champô (este, nunca mais o usei) e, durante a viagem, a embalagem abriu, o champô "voou" com a pressão e o meu uniforme azul ficou com manchas brancas horríveis. Cheia de sono, tive que lavar o uniforme no lavatório milimétrico do hostel e secá-lo com o secador de cabelo até às 2:30 da manhã. (Usar roupas húmidas não é uma ideia brilhante quando a temperatura lá fora está abaixo de zero.)
Gostaria de vos dizer que esse foi o único contratempo que enfrentei nos meus primeiros dias na Suécia, mas não foi. Aliás, se eu fosse um bocadinho mais supersticiosa do que sou, teria interpretado esses contratempos como sinais em néon para me ir embora deste país. Mas fiquei. Na minha primeira semana, em que apenas trabalhei, não vi a luz do dia. Passado duas semanas, fiz anos e tive um dos aniversários mais tristes da minha vida (e sim, chorei o dia inteiro, até que os meus colegas me fizeram brownies de chocolate). Passado três semanas, comprei finalmente luvas e a minha vida melhorou consideravelmente.
E agora já passaram cinco anos e eu não sei como. Apesar de tudo o que aconteceu durante este tempo, sinto que ainda estou naquele quarto de hostel, de secador de cabelo na mão, a secar o uniforme azul. Mas não. Há uns dias cheguei à conclusão que passei praticamente toda a minha vida adulta até agora na Suécia. Em Portugal sou a "sueca" e na Suécia sou a portuguesa. Perdi algumas coisas, ganhei outras e poderia escrever um post quilomééééétricoooo sobre este tema mas sei que o vosso tempo é precioso e que o que eu senti e sinto durante esta jornada não é mais nem menos aquilo que todos os emigrantes sentem. Uma coisa é certa, hoje em dia sou uma autêntica profissional a empacotar champô. Parabéns a mim!


sábado, 6 de julho de 2013

Balanço de um mês em Portugal


Bolos e bolinhos emborcados: 895
Comentários sobre o meu peso, que está em crescimento exponencial: 5
Idas à praia: 3
Escaldões: 0
Litros de suor vertido: 20
Livros comprados: 7
Livros lidos: 3
Conversas com estranhos: 687
Demissões de membros do governo: 2
Episódios da Dancing Days que vi para acompanhar a minha avó: os suficientes
Idas às compras: 853
Momentos de felicidade com as minhas sobrinhas: 1729
Cuequinhas da Tezenis compradas: 3
Idas ao pão-quente: 589
Vezes que me perguntaram se tinha nascido na Suécia: 2 (medo)
Quilos perdidos: -1

Não vou dizer que a despedida foi fácil, porque não foi. Em parte porque o tempo passou tão rapidamente. Em parte porque acho (sei) que não aproveitei, de diversas formas, o meu precioso mês em Portugal como queria. Em parte porque me sentia tão bem lá. Em parte porque não me apetecia voltar (já). Resta-me voltar à minha vida de mansinho, pôr os óculos "cor-de-rosa" e esperar que, com o tempo, as coisas voltem ao sítio.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Crónicas de um peixinho dentro de água


Pling pling pling. É junho. Estou em Portugal. Pling pling pling. A chuva não pára de cair lá fora. Pling pling pling. Esta tarde, enquanto passeava com a minha mãe pela cidade, tive que comprar um blazer e sair da loja com ele já vestido, para me aquecer. Tudo graças a uma certa burrice crónica, é certo, porque no fundo eu já tinha sido avisada sobre a instabilidade do tempo. O pessoal já andava a queixar-se há muito no Facebook, mesmo antes de eu vir para cá, mas eu não liguei. De qualquer forma, apesar da chuva, do falecimento do meu canário de 13 anos ontem à noite (descansa em paz, Pontinho), do preço ridículo dos bilhetes de autocarro aqui em Aveiro e de outras tristezas que não vale a pena mencionar (e não, não me esqueci da crise, essa grandessíssima vaca), sinto-me como um peixinho na água, o que é conveniente, com tanta chuva. Pling pling pling.

É que parece que por cada coisa má que há em Portugal, há quatro ou cinco coisas boas para compensar. Há as cuequinhas leves e invisíveis da Tezenis. Há as glórias, as gomas da Hussel, as torradas, os pastéis de nata, os bolinhos de gema, as cerejas mais doces do mundo, o peixe grelhado com um toque de carvão e todo um mundo gastronómico alternativo que eu adoro. Há o nosso mar frio como um balde de gelo mas lindo todos os dias. Há a minha mãezinha, com o seu coração do tamanho da África. Há as minhas sobrinhas lindas, que até gostam dos banhos de espuma que preparo para elas. Os amigos, poucos e bons, que me conhecem quase bem demais. Há minha cadelinha Íris, sempre pronta a dar umas lambidelas que têm tanto de mau cheiro como de ternura. Há os encontros e reencontros. Há sorrisos fáceis de provocar. Há gente que luta. Há o Jumbo, o Continente e até o Pingo Doce. A Fnac e a Bertrand. Há variedade de cereais de pequeno-almoço. Há pão quentinho e manteiga salgada. Há os cortes de cabelo a 14 dinheiros, a manicure a 5, a depilação das axilas a 4. Há uma novidade chamada "gelinho" e que não é unhas de gel mas dura 2 semanas. Há a certeza de que há tantas coisas boas que todo o tempo do mundo não me chega. Há a sensação de que se eu deixasse as minhas raízes descerem mais um pouco, não conseguiria arrancá-las de novo. Pling.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Fantasias da hora do almoço e outras coisas



São inúmeras as vezes em que já amaldiçoei a minha condição de emigrante. Hoje isso aconteceu de novo e nem foi pelos motivos existenciais do costume. Ora estava eu no trabalho, a hora do almoço estava a chegar e eu devia estar muito atarefada a trabalhar mas a verdade é que eu pensava apenas numa coisa: na crise económica? Nas últimas declarações de Fernando Ulrich? Na paz mundial? Não, não, não. Em rissóis, minhagente. De camarão, para ser mais específica. E depois cometi um grande erro: fui ao Google. Há duas ocasiões em que nunca, sob circunstância alguma, se deve usar o Google: 

a) Quando queremos fazer autodiagnósticos de doenças - toda a gente sabe que o Google nos vai diagnosticar uma doença rara, de preferência tropical, obviamente contagiosa e incurável;


b) Quando estamos com desejos de comer algo. Por exemplo, quando se tem desejos de comer rissóis não se deve ir ao Google pesquisar "rissóis". Óbvio, certo? Mas não.


Então aqui a esperteza resolveu ir ver imagens de rissóis ao Google. E graças a isso fiquei o dia inteiro a desejar poder entrar num café qualquer e comer rissóis de camarão com arroz branco, uma rodela de tomate e uma folha triste de alface com azeite e vinagre, à boa moda portuguesa. 


Ah, se a burrice e os desejos de comer rissóis de camarão matassem.


Tirando isso anda tudo bem. Rápido, mas bem. Há alturas em que a vida exige mais de nós. Assim tem sido para mim. Mais trabalho, mais estudos (falo disto noutra altura), mais compromissos, mais contas a pagar, mais coisas a planear, mais consultas a comparecer, mais coisas em que pensar, mais balanços para fazer. Até o corpo me tem pedido mais atenção, e por isso tenho tentado fazer exercício, ir ao ginásio e comer salada (um verdadeiro plano de intervenção, if you ask me) mais vezes. E quando isso acontece, há que saber pôr travões às coisas e dar prioridade ao que realmente é prioritário. Eu gosto muito do meu blogue, do convívio que ele me proporciona, das pessoas que "conheci" através dele e das energias que ele me traz, mas desta vez ele está em segundo plano. Desculpem a ausência e os parcos comentários aos vossos blogues, sim? Eu vou ali... mas eu já volto!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Vida antes do Skype


Como era a vida antes do Skype? Não, não preciso que me contem (eu lembro-me), eu sei que ela era assim:








Uma coisa sem luz, sem cor, sem sabor e sem cheiro.

Às vezes bastam 14 minutos de convívio para iluminar o coração de uma tia saudosa durante toooodo o dia.


Fontes das imagens aqui, aqui e aqui.