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sábado, 8 de março de 2014

Queria uma caixinha de lentes de contacto azuis e um passaporte novo, se faz favor.


Eu tinha sido avisada, mas preferi pensar que era mito urbano. Há quem pense que o nosso pequeno jardim à beira-mar fica na América do Sul. Conheço emigrantes portugueses que se queixam da frequência dos enganos mas, das duas uma, ou tenho tido sorte com as pessoas com que me cruzo ou então não ando a conviver com muita gente. 
Sei que em cinco anos de aventuras escandinavas nunca me tinham feito uma dessas. Normalmente as reacções que as pessoas têm quando lhes digo que sou portuguesa podem ser divididas em cinco categorias: 

1. Ah, Ronaldo! Gosto muito do Ronaldo, é o maior! / Não gosto do Ronaldo, é tão arrogante!; 
2. Ah, Mourinho! Gosto muito do Mourinho, é o maior! / Não gosto do Mourinho, é tão arrogante!; 
3. Uma vez estive em Espanha e gostei muito!;  
4. Uma vez estive em Lisboa/Algarve e gostei muito! 
5. Mas que língua é que falam em Portugal?...; 

Também já tive a infelicidade de ver Portugal no mapa no telejornal, mas cortaram o "P" e ficou "ortugal" (doeu um bocado). Mas... até há pouco tempo nunca tinha ouvido essa da América do Sul. Foi mais ou menos assim: numa loja, a funcionária mete conversa comigo. Venho a saber que é turca e vive na Suécia desde criança. Quer saber donde sou e o que estou a fazer aqui. "Ah, portuguesa, está bem! E estás a estudar, que bom! Foi fácil obter o visto?" Eu: "Hmm... Portugal faz parte da E.U. por isso não houve problemas". Ela: "Ahh... é que conheço por exemplo muitos chilenos e para eles foi muito difícil". 

Podia ser pior. Uma vez uma senhora árabe convenceu-se que eu era árabe e ficou furibunda quando lhe disse que não falava árabe. Uma vizinha, provavelmente também convencida que eu era "desses países", só começou a dirigir-me a palavra, e mal, quando ficou a saber que eu era portuguesa (ou seja, europeia, ou seja, não árabe). A minha prima passou por algo ainda pior: um grupo de árabes, também convencidos que ela era árabe, insultaram-na aos berros por ela não estar a usar véu. Não é fácil ter olhos castanhos e cabelo castanho neste país. Não é fácil ser portuguesa neste país (talvez não seja fácil ser-se português em lado nenhum). Sai uma caixinha de lentes de contacto azuis e um passaporte novo, se faz favor. 

P.S. Ou não. Ainda te amo, "ortugal".